O breviário do ocaso


























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25 anos. 1 câmera. 1 computador. Acho que basta.



























Semponto - nem nó
Março 28, 2007
Naquele tempo eu era apenas um empregado doméstico. Camareiro, nada mais nada menos, do que na casinha de Antônio Ermírio de Moraes. Apesar de sua riqueza, é um senhor bem humilde. Não fazia distinção entre empregados da casa, do hospital e do escritório, sempre perguntando "olás, como vão os dias?" ou "que vergonha teu time ontem, hein?".

O dr. é atarefado. Na casa dele onde eu trabalhava, em Pinheiros, já vi de tudo. Cantor famoso pedindo dinheiro emprestado, ministro pedindo a intervenção do dr. ante outros ministros mais poderosos, vários governadores várias vezes, técnico da seleção brasileira em um aniversário , duas vezes o presidente da república e até o primeiro-ministro japonês. Seu Antônio dava conta de tudo. E o Meira pra lá e pra cá.

Meira, pra vocês que ainda não sabem, é o "assessor para todo e qualquer assunto a qualquer hora não importa se dia ou noite" do Seu Antônio. Qualquer pessoa que vivia nossa rotina, sabia que, sem o Meira, Antônio Ermírio de Moraes não é ninguém. Era um tal de "Meira fecha isso!", "Meira compra aquilo!", "Meira vê se providencia pra mim.", "Meira busca fulano.", "Meira cadê Sicrano?", o tempo todo.

Uma vez, eu fazia limpeza na suíte do dr. e de sua esposa, sozinho, quando ele passa correndo e nem me vê. Na corrida bate a porta do quarto e dispara pro banheiro deixando essa porta aberta. Percebi que Seu Antõnio tava cagando e que, coitado, devia estar com uma baita dor de barriga. Fiquei sem graça de sair do quarto, porque ele ia ter que me ver e eu a ele sentado na privada. Permaneci quietinho torcendo pra que quando ele acabasse, saísse do quarto sem me ver, evitando o duplo constrangimento.

Nisso toca o telefone e o dr. atende o do banheiro mesmo, colocando no viva-voz. Era um empresário mercenário querendo que o Seu Antônio vendesse mais partes da sua empresa para ele. Seu Antônio, bastante calmo, tentava convencer o empresário de que isto seria impossível. Mas o cara não arrefecia, queria porque queria mais controle da empresa do qual ambos eram sócios, óbvio que Antônio Ermírio, sócio majoritaríssimo.

Em dado momento da conversa o empresário fica mais exaltado e ameaça:
- Olha, eu e o pessoal do Banco Freire estamos juntos nessa, vou entrar junto com eles e assim vamos comprar tudo, espera pra você ver então.
Nisto, Seu Antônio ainda da privada desliga o telefone e berra pela casa chamando o Meira.
Mais do que rápido o Meira cola o ouvido na porta do quarto e grita pro Seu Antônio:
- Oi! Pode falar!
Então, o dr. com uma cara de enfado de tudo que só os ricos podem ter, ordena:
- MEIRAAA, compra o Freire!







9:53 PM

Março 18, 2007







5:45 PM

Março 15, 2007
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9:09 PM

Março 14, 2007

OS INFILTRADOS








9:37 PM

Março 11, 2007
Depois do almoço, costumo sentar-me num dos raros bancos com sombra na pracinha do lado do meu trabalho e de frente para o mar. Eis que um dia:

Eu lia "De ladrões e vagabundos" de Jack London, a meu lado um senhor com pele incrivelmente enrugada, cabelos branquíssimos e olhos mais claros que o azul do céu daquele dia de verão. De repente interrompeu-me a leitura.

- Você acredita em Deus?
Surpreso, respondi:
- Não, não acredito.
- Mas meu filho, como você pode não acreditar, se até esse ar que você respira foi Ele quem fez.
- Bem, eu posso até concordar que exista uma ordem metafísica por trás de toda essa bagunça. Mas em um ente acima de nós, que rege nossa vida, nisso não acredito.

O velhinho escutara-me atento e fiquei satisfeito ao comprovar prálguem os benefícios de uma educação laica, científica e que me arrebatara um diploma de curso superior.
Porém, minha pretensa vitória não durou sequer quarenta segundos ou um parágrafo de Jack London.

- Você sabe o nome de Deus?
- O nome de Deus? _ disse fechando o livro.
- É. Sabia que tudo, tudo que existe no universo tem um nome? Você tem um nome, eu tenho um nome, seus relógio tem nome e seu óculos escuro chama-se "óculos escuro".
Por isso Deus também tem um nome. O nome dele é Jeová.
- Aposto então que o senhor é testemunha-de-Jeová, certo?
- Sou, há cinquenta e cinco anos que me converti e professo essa fé.
- Sabe trechos da Bíblia de cabeça?
- Talita cumi. Marcos 5-41.
- Quem é Talita?
- Talita cumi quer dizer "menina, levante-se". Jesus disse Talita cumi e a morta se levantou e voltou a viver. Você não acredita mesmo em Deus?
- Acho que não. Mas me dá uma dica, você sabe na Bíblia onde fala de amor?
- Meu filho, a Bíblia toda fala de amor.
- Algum trecho em especial?
- João 4-8. "Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor."
- Obrigado, mas já está ficando tarde e tenho que voltar pro trabalho.
- Foi um prazer.
- Digo o mesmo.

Às vezes pergunto-me se o velho era o Próprio disfarçado. Enquanto estiver vivo nunca vou saber.

Na rede do banco onde trabalho, a opção 5-41 consulta saldos e extratos bancários.



3:52 PM





3:06 PM

Março 5, 2007






8:55 PM

Março 1, 2007
Em 1986 o cometa Halley passou astronomicamente perto da Terra. Eu lembro exatamente disso.
Deitado de costas na varanda do sítio do meu vô, minha tia fazia algumas considerações:

"A próxima vez que o cometa passar eu vou estar morta. Você vai estar bem velhinho."

E eu tinha apenas 5 anos.
Lógico que minha tia boazinha não se dera conta do impacto que me causara, mas eu pensei. Uau!, isso aqui ela nunca mais vai ver, e eu só depois de muito e muito tempo. A verdade é que a órbita do Halley ao redor da Terra é de uns 200 anos.
Não faço a menor idéia hoje se minha tia sabia disso ou não. Se não sabia, acho que ela apenas quis dizer que era uma coisa que acontece muito raramente e no fundo quis ser gentil comigo dizendo que lá pelos idos de 2186 eu ainda estaria por aqui.
Mas, se sabia, era melhor não ter dito nada.






9:54 PM

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