Abril 18, 2007
Há quase três meses nascia minha sobrinha. O mundo era pior, tenho certeza.
De lá pra cá aconteceram muitas coisas:
O PIB brasileiro, por exemplo, foi revisto e de uma hora pra outra ficamos incrivelmente mais ricos. A Polícia Federal passou o rodo no Rio. Romário chegou nos 999 gols (e empacou). Arrastaram um moleque pelas ruas do Rio de janeiro e um coreano suicida levou mais trinta americanos com ele pra visitar o ilmo Senhor. Lula finalmente fez a reforma ministerial e aumentou para impossíveis 67% sua aprovação como presidente ante à população. O risco-país foi ao nível mais baixo de sua história e o sr. Dólar deu um selinho na sra. Dois Reais (por enquanto estão só na amizade, mas não negam uma aproximação maior no futuro).
Uma cara nova surgiu na minha vida. Tá ela aí embaixo. Eu, nós todos, estamos adorando.
Abril 4, 2007
Nas horas em que sua mulher saía pregando a má sina feminina, Amilton ouvia calado. Era batata. Não se podia ir a uma comemoração do trabalho, um almoço em família, uma festinha das crianças, que Amélia começava.
- Os homens não sabem de nada, não sabem o que é dor de verdade. Já tive três filhos, e posso dizer, não há dor pior no mundo.
O marido sabia a ladainha de cor e salteado. Começava sempre com as dores do parto, em seguida passava para a menstruação (que ela chamava de "regra"), depois para a necessidade diária de maquiagem, na sequência investia contra as torturas do salto alto e terminava invariavelmente com uma bronca sobre os métodos de depilação. Amilton, que de começo achara graça, depois da quinquagésima vez torceu o bico, ou seja, não rebatia, mas também não aprovava.
Quando Amélia não comparecia nesses encontros, a troça da turma recaía no marido.
- Ô rapaz, mulher que não tá contente de ser mulher é porque não tem homem em casa! _ e caíam na gargalhada.
Embora a mãe, a sogra e até as primas solteironas dissessem que a "regra" era uma benção, Amélia não dava o braço a torcer. Os homens é que eram sortudos, faziam o que queriam, na hora que bem queriam. Sem ter que carregar os filhos no panduque por nove meses, sem um sangramento mensal com data e hora marcadas, o descaso com a aparência e outras e tal. As agruras do marido nem de longe a tocavam. Fazia questão de não sabê-las. Amilton, passava às vezes triste. Impotente, sexualmente, e calvo.
Há um mês de completar seus sessenta anos, Amilton parou de fazer as barbas, para espanto da mulher que sempre as vira muito bem aparada. Enquanto a barba crescia a olhos vistos, Amélia macaqueava: "Tá aprontando alguma."
Como não passava um dia sem deixar de fazer a barba, esta tinha uma força tremenda e uma espessura incrível. Dir-se-ia uma piaçava. Todo dia antes de se deitar, Amilton pegava em réguas e, no banheiro, puxava o fio mais longo na altura do queixo e media-o. Meio centímetro em apenas vinte dias. Aquilo é que era barba, o resto é estória.
No dia do aniversário, Amilton exibia uma barba grande, grossa, espalhada na cara e pescoço. Veio gente do trabalho, parentes de fora, vizinhos mais próximos e o diabo a quatro. A festa começa bem, até que lá pelas tantas a mulher começa a discursar. Amilton zarpa, chega no meio da sala, ao lado da mulher e pára. Em um gesto treinado inúmeras vezes durante trinta dias diante do espelho, saca uma navalha do bolso e encosta no pescoço. Alguns não acreditam, a mãe passa mal, o pai desmaia. Vermelho, de ansiedade e raiva, vai à desforra com a mulher:
- Não começa, porque vocês nunca tiveram barba. Nunca fizeram barba. A barba! A barba!
E passando a navalha de baixo para cima, arranca um naco daquele pêlo grosso.